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OBSESSÃO PELA FUTILIDADE

Atualizado: Abr 9


Tenho cada vez mais convicção de que o brasileiro, pelo menos em sua maioria, tem adoração por coisas fúteis, superficiais e desinteressantes. Enfim, por aquilo que não acrescenta nada em nossas vidas, mas estão ali, sempre presentes, como se fossem um karma.

Percebo isso, principalmente, nas redes sociais. Outro dia até fiz uma pequena pesquisa na minha timeline onde são exibidas as postagens de milhares de pessoas – muitas que conheço, outras que não. E o resultado foi curioso. De 100 postagens que li, vi o seguinte:

– 3 compatilhamentos de notícias do dia; – 5 questões sobre política/corrupção/saúde/educação/; – 32 postagens de coisas estritamente pessoais (fiz isso, fiz aquilo, vou aqui, fui ali); – e outras 60 (SESSENTA!!) piadinhas/fotos engraçadas/BBB/Caneta Azul e outras baboseiras.

Mas no Facebook até que a gente perdoa, afinal aquilo ali não é uma coisa pra ser levado muito a ferro e fogo. É mais pra descontrair, rir e fazer rir, desabafar. Enfim, é um diário pessoal onde cada um exprime o sentimento que bem entender.

Mas acho interessante mesmo é que quando posto algum assunto sério, algum questionamento sobre comportamento, uma reportagem de impacto, uma questão política, uma nova lei, um caso de corrupção, etc…. recebo lá, vai, 5 comentários! Agora se eu posto uma foto engraçada ou um vídeo de alguém que escorregou e se estatelou no chão, pronto, lá vem uma enxurrada de comentários e curtidas.

E não vejo isso apenas na minha timeline não. Das dos meus amigos também. É um festival de besteiras que às vezes me assusta. Aí me pergunto: será que as pessoas não querem mesmo falar de coisas sérias por causa de tanta atrocidade que vemos nas notícias ou não estamos nem aí pra isso e o jeito mesmo é brincar?

E vejo isso acontecer também fora das redes sociais. Mulheres frutas fazem sucesso na TV e viram celebridade junto com os “famosos quem mesmo?” que passam pelo BBB. Um funk qualquer cuja letra não tem o menor sentido (e elas nunca tem mesmo), mas que tem uma batida irritante, estoura nas paradas de sucesso e ganha até disco de ouro. Reality shows inúteis que mostram um bando de gente sem noção, sem ter o que fazer e sem nenhum conteúdo se proliferam nas tvs e tomam espaço de coisa muito melhor que poderia ser exibida. É uma impressão incômoda de que o brasileiro só dá valor ao que não presta!

Posso até repetir um pensamento do meu colega de profissão, Carlos Nascimento do SBT, que disse que já fomos mais inteligentes.

Novela tem mais audiência que documentário. Programa cultural é uma coisa que só se vê nas madrugadas do fim de semana quando quase ninguém está acordado. E se está, não está na frente da televisão. Axé, funk e sertanejo universitário fazem mais sucesso que MPB e a mulher do momento não é a que venceu um câncer e ajuda num campo de refugiados e sim a que chama Pablo.

No Facebook vejo compartilharem charges engraçadas e fotos bizarras mas não vejo isso acontecer com as palavra de Deus, por exemplo, ou mensagens de otimismo e esperança na mesma quantidade. Milhões de pessoas ligam para votar no BBB (que fatura milhões de reais a cada paredão), mas não vejo ninguém doando um centavo sequer para qualquer instituição de caridade ou para qualquer causa nobre. Eu mesmo estou pedindo ajuda através de uma vaquinha solidária (http://vaka.me/818388) e não recebi a contribuição de mais do que meia dúzia de pessoas. Uma dancinha engraçada da minha filha obteve mais curtidas do que a postagem da vaquinha.

Diante disso, temo pelo futuro dela, que acabou de completar 8 anos, e de outras crianças que estão crescendo num mundo com valores tão baixos. Além disso tudo que vemos, ainda enfrentamos uma onda de intolerância que assusta – é gente matando gente por causa de uma discussão de trânsito, gente que fura fila por causa da pressa, estaciona em vaga de deficiente, não dá lugar pra idoso nos ônibus, gente incapaz de ser gentil e que discute ferozmente sobre Bolsonaro ou Lula Livre.

Privar nossos filhos desse mundo é praticamente impossível, só trancafiando-os dentro de casa sem internet e televisão. Mas o esforço que fazemos hoje para torná-los pessoas melhores no futuro é imensamente maior do que fizeram conosco os nossos pais. E isso torna uma frase que se espalhou por ai, ainda mais verdadeira: “Muito se pensa em deixar um mundo melhor para os nossos filhos. Mas alguém sabe como deixar filhos melhores para o nosso mundo?”. Com tanta baboseira por ai, não vai ser fácil! #Ficaadica!


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