Douglas Raldi

A arte de transformar histórias em espaços 


Designer, artista, professor e pesquisador, Douglas construiu uma carreira pautada na sensibilidade, na cultura e na compreensão profunda das pessoas para transformar casas em espaços que contam histórias

Em um mercado frequentemente associado a tendências, lançamentos e referências visuais, Douglas Raldi segue um caminho que começa muito antes da escolha de cores, móveis ou revestimentos. Para ele, um bom projeto não nasce da criatividade do profissional, mas da capacidade de ouvir.

A afirmação pode soar contraditória para alguém que construiu sua trajetória justamente em uma área movida pela criação. No entanto, é nesse princípio que Douglas fundamenta mais de duas décadas de atuação profissional entre arte, design e educação.

“Eu aprendi que o designer precisa escutar muito. Antes de criar qualquer coisa, é preciso entender quem são as pessoas, quais são seus sonhos, suas memórias e a forma como desejam viver”, afirma.

Essa visão ajuda a explicar por que seus projetos dificilmente seguem fórmulas prontas. Cada ambiente nasce de uma leitura cuidadosa da identidade de quem irá habitá-lo.

A arte veio antes de tudo

Muito antes de se tornar uma referência no design de interiores em Mato Grosso do Sul, Douglas já vivia cercado por estímulos criativos.

A arte esteve presente desde a infância. A influência familiar teve papel decisivo nessa construção. Ele cresceu em um ambiente onde a curiosidade era incentivada, a cultura valorizada e a criatividade nunca foi tratada como algo secundário.

As lembranças incluem tardes observando uma tia pintar enquanto a música clássica preenchia a varanda da casa rodeada por jardins. Experiências que, embora parecessem simples naquele momento, ajudaram a moldar seu olhar para o mundo.

“Eu nunca fui impedido de conhecer, experimentar ou criar. Minha mãe sempre incentivou essa liberdade”, recorda.

Não por acaso, sua primeira formação profissional aconteceu nas Artes Visuais. Vieram os anos como artista e professor, experiências que, mais tarde, serviriam de base para sua atuação no design.

Hoje, Douglas costuma dizer que arte, design e arquitetura são áreas inseparáveis.

“Todo mundo deveria conhecer a arte primeiro para depois conhecer o design e a arquitetura.”

Para ele, é a arte que desenvolve repertório, senso crítico e capacidade de interpretar culturas, comportamentos e emoções.

Casas que contam histórias

Ao contrário de muitos profissionais que buscam impor uma assinatura estética, Douglas acredita que um projeto só faz sentido quando representa verdadeiramente seus moradores. Seu processo criativo começa com longas conversas, observação e escuta. A comparação que utiliza é simples.

“Quando vamos ao médico, ele primeiro nos escuta para entender o que precisamos. No design acontece a mesma coisa.”

É a partir dessa escuta que ele identifica hábitos, preferências, referências culturais e memórias afetivas capazes de orientar cada decisão do projeto.

Essa filosofia também explica sua resistência a ambientes excessivamente padronizados. Para Douglas, a casa deve refletir personalidade e não apenas tendências de mercado. Mais do que isso: deve preservar histórias.

Por isso, ele é conhecido por incorporar peças herdadas, mobiliários antigos e objetos carregados de significado emocional. Elementos que muitos descartariam encontram novo protagonismo em seus projetos.

“Você não apaga a história de uma família”, pontua.

Ao observar as transformações do comportamento contemporâneo, Douglas acredita que o conceito de luxo também mudou. Se antes ele estava associado ao consumo ostensivo, hoje está ligado à qualidade de vida, ao bem-estar e à autenticidade.

“O novo luxo não é ter uma bolsa de marca ou um carro específico. O novo luxo é viver em uma casa com personalidade.”

A afirmação traduz uma tendência cada vez mais presente entre consumidores que buscam ambientes capazes de gerar pertencimento, conforto e identidade.

Nesse contexto, a valorização da memória afetiva ganha força. Objetos de família, obras de arte, coleções e referências pessoais passam a ocupar um lugar de destaque dentro dos projetos.

Pesquisa, educação e construção de autoridade

Por trás do profissional criativo existe também um pesquisador apaixonado pelo conhecimento. Douglas defende que criatividade não é apenas talento. É resultado de estudo, observação e repertório cultural. Essa busca constante por aprendizado ajudou a consolidar sua trajetória ao longo dos anos.

“Quando você entende estilos, você entende pessoas.”

Além da atuação profissional, tornou-se professor universitário, coordenador de curso e curador de mostras importantes no estado. Sua participação em eventos como a Casa Cor Mato Grosso do Sul ampliou ainda mais sua visibilidade.

Entre os momentos mais marcantes da carreira está a conquista do prêmio de Melhor Solução Criativa em sua estreia na mostra no ano de 2016, reconhecimento que considera um divisor de águas em sua vida profissional.

Hoje, colegas de mercado e alunos o enxergam como uma das vozes mais influentes do setor no estado.

O futuro continua sendo humano

Em um momento em que a inteligência artificial avança sobre praticamente todas as áreas criativas, Douglas mantém uma visão equilibrada. Ele reconhece o potencial das novas tecnologias, mas acredita que nenhuma ferramenta substitui aquilo que considera essencial: a sensibilidade humana.

“O processo criativo continua na cabeça das pessoas.”

Talvez seja justamente essa convicção que explique sua trajetória. Enquanto o mercado busca velocidade, Douglas segue apostando na escuta, porque, para ele, criar não é apenas projetar ambientes bonitos. É compreender pessoas, interpretar histórias e transformar espaços em extensões daquilo que cada indivíduo tem de mais autêntico. E é nessa capacidade de ouvir que nasce o verdadeiro design.

Pingue-Pongue

  • Design para você é… “contar histórias por meio dos espaços.”

  • Um ambiente perfeito precisa ter… “escuta, curadoria e propósito.”

  • Uma cor… “as primárias e secundárias, impossível escolher uma só.”

  • Uma textura… “dos tecidos texturizados.”

  • Um objeto de decoração… “abajur.”

  • Uma viagem… “a interna em busca do autoconhecimento.”

  • Um cheiro… “meu perfume.”

  • Uma música… “aquela que desperta emoções.”

  • Um filme… “Coco Antes de Chanel.”

  • Um artista ou designer inspirador… “Deus.”

  • Um estilo de decoração… “maximalista.”

  • Um ambiente da casa… “cozinha.”

  • Uma memória marcante… “a premiação de Melhor Solução Criativa da Casa Cor MS em 2016.”

  • Um sentimento… “amor.”

  • Criar para você é… “encantar pessoas.”

  • O futuro do design para você é… “inovação constante.”

  • O que nunca pode faltar em um projeto? “Cor!”

  • Um sonho profissional ainda não realizado… “ser premiado no Salão de Milão.”

  • Uma palavra que define sua trajetória… “artista.”

  • Douglas Raldi em três palavras… “acolhedor, criativo e apaixonado.”

  • Celebrar para você é… “viver a beleza da vida!”

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Conheça mais sobre o trabalho de Douglas Raldi no Instagram @douglasraldi.

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Daiana Capuci