Matu Miranda e uma nova geração da música brasileira
Matu Miranda é um artista atravessado pelo deslocamento. Sua música nasce do chão do Pantanal, mas não se deixa conter por fronteiras fixas: carrega a paisagem como memória sensível e a transforma em som, ritmo e narrativa. Entre a infância marcada pela convivência com a natureza, o fascínio pela música instrumental, o rigor da harmonia e a poesia do ínfimo ensinada por Manoel de Barros, Matu constrói uma obra que dialoga com a América do Sul como território afetivo e com o mundo como horizonte. Cantor, compositor e músico, ele faz da voz um instrumento em viagem constante, navegando entre guarânias, chamamés, jazz, canção brasileira e experimentação, sempre guiado pela escuta atenta e pela curiosidade de quem entende a música como travessia. Matu representou o Mato Grosso do Sul do The Voice Brasil em 2024 na Rede Globo e tem sempre os grandes cancioneiros de nosso estado em seu repertório.
Sua música tem algo do chão do Pantanal, carregando a delicadeza e a força do território?
“Sem dúvida. Eu tive o privilégio de passar parte da minha infância indo ao Pantanal. Eu acho que, sendo uma criança, a Natureza te atravessa de uma maneira que fica a vida toda. Isso fala sobre a experiência com a fauna, com a flora e reflete, sem dúvida, na criação, na inspiração até hoje. Tratando-se de gênero, tive a experiência de compor duas guarânias e, recentemente, um chamamé. Então, isso está na criação e na essência da gente.”
A América do Sul habita sua música como um território afetivo. Como esse continente se traduz em ritmo, melodia e narrativa na sua obra?
“O continente consegue traduzir muito bem a sua história, a sua cultura. Permeado por muitos tipos de tragédias, que acontecem em todas as sociedades, mas também de beleza. A arte vem de um lugar de renascimento, através da cura, da criação. É notório isso, assim, ritmicamente muito rico. E esses ritmos, que têm esse movimento implícito no sentido dessa marcha, desse galope, a força do ritmo ternário, na música da América do Sul, o sincopado. E o violão e a sanfona dentro disso, compondo timbriticamente também essa história. É lindo demais.”
Quais encontros — musicais, literários ou humanos — foram decisivos na construção da sua identidade artística?
“Os encontros musicais foram e seguem sendo muitos. Eu vou citar os que considero pontos de virada na minha relação com a música. O primeiro é o Arismar do Espírito Santo, que é um gênio multi-instrumentista. A gente se conheceu em Jericoacoara, CE, num festival de choro e jazz, e ele me acolheu desde sempre, me chamou pra gravar no disco dele. Acolheu esse lugar da voz na música instrumental, na improvisação e abriu um universo pra mim. Depois, Carlos Malta, um gênio dos sopros e que, por muita sorte, é meu padrasto. A gente desenvolve um trabalho de duo e eu colaboro em outros projetos dele. O Malta fez a ponte com outras figuras muito importantes, como o Lenine, que gravou no meu primeiro disco. Também me apresentou ao Edu Lobo, com quem pude gravar três faixas cantando junto com ele músicas dele em parceria com o Pife Muderno, que é o grupo do Malta. E o Gilberto Gil, que o Malta me apresentou e tive a oportunidade de cantar pra ele no estúdio dele. Como referência literária tenho Manoel de Barros, nosso conterrâneo, que me formou em poesia mesmo, na maneira de observar a Grandeza do Ínfimo. Tem um título de um livro dele que eu amo, que é ‘O Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo’. Acho isso genial”.
Onde repousa o Mato Grosso do Sul dentro da obra de Matu Miranda: no sotaque, na paisagem ou na forma de narrar o mundo?
“O Mato Grosso do Sul está presente na minha obra de fato nessa paisagem, tanto a visual quanto a sonora. Essa forma de narrar o mundo. A fronteira. A noção de fronteira sempre esteve muito presente porque a família da minha avó é de Ponta Porã. Então, sempre tive uma relação com o Paraguai e eu acho que tem uma coisa do viajante nessa narrativa. E eu mesmo morei em muitos lugares desde criança. Em Campinas, em Campo Grande, onde morei até meus oito anos. Depois eu virei meio nômade, mas carregando essa paisagem. Eu acho que todo mundo que sai do Mato Grosso do Sul, de uma maneira ou de outra, consegue trazê-la consigo. Em algum momento da vida a gente faz esse elo e entende o que é a nossa raiz, o lugar de onde se vem, tudo o que se absorveu ali na primeira infância. Isso está muito na gente e é lindo! Acho que tudo o que eu cresci ouvindo, o que eu experienciei na minha formação, no meu estado, eu carrego comigo para onde eu vou.”
As canoas da música sul-mato-grossense que você conduz seguem para quais águas — locais, continentais ou universais?
“Eu fui levando a minha canoa por muitos lugares, a começar por esse fascínio pela música instrumental brasileira, o jazz, a música erudita, tudo o que não tem palavra, a princípio, me fascinou muito. A palavra te conduz por um caminho, por uma narrativa pré-definida, o som não. O som você cria essa narrativa na sua cabeça e isso sempre me fascinou, a liberdade dos sons sempre me fascinou. A ciência da harmonia, a melodia, essa coisa mais nerd da música, de entender as camadas que estão por trás daquela massa sonora que a gente ouve. Esse lugar da música instrumental sempre foi um fascínio para mim e me leva a explorar a voz como um instrumento. Porque ela é como qualquer instrumento capaz de solar melodias. Eu gosto de pensar a voz nesse lugar solista e, ao mesmo tempo, se fundir. Porque a música brasileira é um grande caldeirão de tantas coisas, como é o nosso povo miscigenado. A gente consegue passear pelo Brasil como se cada estado fosse um país com a sua linguagem. Isso se entremeia e eu tenho esse fascínio pela pluralidade da música brasileira. A música do mundo deságua na música brasileira e a música brasileira devolve pro mundo uma música universal e eu vou passeando por aí com essa canoazinha.”
A ideia de fronteira, com suas misturas e tensões, é um elemento na sua produção artística?
“Sim, de fato. A fronteira, enquanto passagem, delimitando a viagem, delimitando a chegada, a partida, o encontro, a despedida. Isso está muito na minha música, na poesia, nas narrativas que permeiam a minha história de viajante. Sempre me fascinou essa coisa da fronteira, essas linhas imaginárias que rasgam a terra e dividem culturas, nomenclaturas, linguagens, música e é tudo invenção humana. Ao mesmo tempo eu vejo uma poesia nisso e, por vezes, também vejo uma burrice. Mas é uma realidade que a gente se deixa levar pelas narrativas que essa noção de fronteira pode conduzir.”
Você integra uma nova geração da MPB, que dialoga com o Brasil e com o mundo. Como essa nova MPB se constitui e que caminhos ela aponta para a música contemporânea?
“A música popular brasileira, esse termo designou um período. Um período histórico, sociocultural de um coletivo de artistas não muito grande. Era muito dentro daquela dinâmica dos festivais. Esses cancioneiros, esses compositores de canção conduziram esse caminho da música popular brasileira, que é muito vasta, muito maior do que esse grupo específico. Mas, foi a música popular daquela época. Principalmente por conta da televisão, dos festivais, tinha esse espaço. Hoje em dia, a música popular brasileira não é o que a gente está fazendo literalmente. Mas, dentro desse sentido, há uma nova geração fazendo canção no Brasil, que já cresceu com acesso a tudo. Então eu acho que, ao mesmo tempo em que todo mundo tem as mesmas referências em alguma medida, o que vai diferir, principalmente se tratando de obra, de catálogo, vai ser uma espécie de caminho pautado na palavra com um cuidado, um refinamento com a produção fonográfica, com uma maneira de se conceber a música, de se pensar arranjos. Eu tenho uma esperança de que o ouvido do público jovem, em alguma medida, está voltando a se reabrir também para a música com profundidade. A indústria cultural e o mercado conduziram a música popular do povo por um caminho muito superficial, plástico, enfim, raso. E isso empobreceu o repertório de muita gente. Principalmente das gerações que chegaram com a internet, com as redes sociais e tiveram a atenção minada, a atenção cada vez mais escassa. Então, eu tenho uma esperança de que exista um público jovem que consiga ter essa abertura para uma música que exige presença, exige uma escuta ativa ali, não só um pano de fundo para uma outra coisa. Que as pessoas se possibilitem viver essa experiência de se abrir pra uma música nova e não previsível e que surpreenda e que seja uma experiência como a de quem assiste a um filme, de se entregar para uma história. A minha esperança é essa.”
Num tempo de escutas rápidas e canções descartáveis, Matu aposta na profundidade como ato de resistência. Sua obra não quer apenas ser ouvida — quer ser habitada. Como um rio antigo, ela segue lembrando que a música, quando verdadeira, não é pano de fundo: é caminho.